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Um projeto especulativo no design é quando uma empresa contrata uma gama de profissionais para cada um apresentar sua proposta finalizada, então escolhem uma e essa recebe o pagamento. Similar aos concursos “Crie uma logo” de uma empresa. Por que isso deveria acabar?



De acordo com o capítulo III, Artigo 12º do Código de Ética Profissional do Designer Gráfico da Associação dos Designers Gráficos (ADG): “O Designer Gráfico não deve, sozinho ou em concorrência, participar de projetos especulativos, pelo qual só receberá o pagamento se o projeto vier a ser aprovado”.

Por que é aético um designer fazer parte desse “concursos” onde vários designers, micreiros, pseudo-designers, publicitários, etc concorrem a uma chance de exposição no mercado? Essa prática é predatória, é incorreta e invabiliza seu negócio assim como dos seus colegas.

O que acontece é que muitas empresas criam esses concursos para que recebam várias propostas e idéias diferentes, de diferentes pessoas, e depois escolhem algum trabalho que eles julguem “bonitos” - acredite, não há nenhum outro fator que defina quem vai ganhar.

Essa prática é incorreta por simples motivos: não há briefing, não há contato com o cliente, não há pesquisas, não há geração de alternativas e muitas vezes não há o conhecimento técnico por parte do participante (micreiros, etc). Criar uma identidade visual para uma empresa não é simplesmente criar uma logo que fique “legal”. Ela precisa passar algo pras pessoas. Imagine uma rede de lanchonetes adotar uma logo que tenha como cores básicas o preto e o azul? Já parou pra pensar como a maioria das redes de fast-food preferem cores como amarelo, vermelho e por vezes, verde? Existe uma razão pra isso, razão que o micreiro provavelmente desconhece. A logo precisa ser aplicada em diversos lugares. O tamanho dela precisa ser cuidado para que dê pra colocá-la em palito de fósforo ou em um outdoor, sem que a identidade fique illegível.

E esse não é o único problema. Mesmo que se apenas designers participassem, existe o problema do custo. Você, designer, têm contas a pagar, certo? Você precisa comprar materiais de desenho, papel, softwares ou até um computador novo. Como você vai gastar tempo em um projeto onde o retorno não é garantido? Além do mais, você não vai ter a chance de justificar seu trabalho, defender suas escolhas.

As empresas que praticam a especulação geralmente acredita que designer vende um design. Mas como diz Strunck em seu livro “Viver de Design” (recomendadíssimo!): “Não vendemos logotipos, embalagens, cartazes, folhetos ou home pages. Nossa mercadoria são SOLUÇÕES. Sim, isto mesmo, não vendemos idéias ou projetos. O que temos a oferecer são soluções para as necessidades de vida das pessoas.”

Seria como se algum cliente contratasse 5 agências de publicidade diferentes, cada um veiculasse uma propaganda e apenas o que desse retorno ao cliente seria pago. Ninguém faz isso em publicidade e propaganda, por que nós designers deveríamos fazer?

Quando um designer fecha um contrato com um cliente e ele sabe que vai ter que pagar pelo serviço, há um maior interesse por parte do cliente em fornecer todas as informações necessárias (e até as desnecessárias, pois podem ajudar) para que o projeto consiga atingir a meta que ela deveria alcançar. Em um projeto especulativo, não há esse interesse do cliente, logo o projeto não alcançará uma meta favorável. Ficará bonito no papel ou na tela do computador, mas será que é funcional? Por que foi criada assim e não de outro jeito? Por que foram utilizadas essas cores? O que ela simboliza pra empresa? Que é uma empresa séria ou que levam tudo “nas coxas”?

Só imagine que você ganha 50% dos projetos especulativos. Quem irá pagar os outros 50% que você gastou em tempo quando poderia estar fazendo outra coisa, por exemplo procurar um cliente sério, estudando ou até tendo algumas horas a mais de lazer?

Para fechar, uma lista que pode te ajudar a identificar um projeto especulativo (quando não evidente):

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    Você sai da reunião de briefing sem informação de boa qualidade.
    Você entrega sua criação e lhe pedem para ajustá-la inúmeras vezes.
    Você é solicitado a mudar tudo porque o chefe mudou o foco do trabalho.
    Você entrega o projeto urgentíssimo, mas não tem uma definição, porque as prioridades mudaram.
    Você, no fim do processo, é informado que se tratava de uma concorrência e que…perdeu.
    Você propôs a solução escolhida, mas o cliente só quer pagar a metade do seu preço, e você fatura só 50% do que esperava porque o trabalho está praticamente pronto e é melhor isto do que não receber nada.
(Fonte: “Viver de Design” - STRUNCK, Gilberto - 2AB, 2001)

Dê um basta à especulação! Não rebaixe-se ao nível desses clientes que querem se safar de algo sério e certo para pagarem menos por algo que vale mais.

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Comentários:

DudS disse:

Bom o texto, mas sinceramente... Discordo de alguns pontos.

Esse texto é mais um que integra a dura luta das pessoas para vencer no mercado de trabalho dentro da extensa lista das profissões existentes no mundo.

Como em todos os casos, a idéia é "puxar sardinha" para o seu lado. Frases como ""Não vendemos logotipos, embalagens, cartazes, folhetos ou home pages. Nossa mercadoria são SOLUÇÕES. Sim, isto mesmo, não vendemos idéias ou projetos. O que temos a oferecer são soluções para as necessidades de vida das pessoas."" são de grande impacto e só comprovam esse ponto de vista. O objetivo é valorizar o seu "peixe".

Claro que não há mal nenhum nisso. Pelo contrário, dizem que toda profissão na área privada, hoje, depende do marketing para levar sucesso ao profissional. "Vence aquele que sabe vender seu produto/serviço".

A crítica maior é apenas quando, no texto, o autor mistura a ética no discurso. Por favor, qual o problema de ética numa atividade que envolva a concorrência entre os participantes? O sistema capitalista, bem quisto por quase todos, prega a concorrência como o melhor "remédio" para a "boa saúde" do mercado. Atitudes desleais durante essa concorrência sim, poderiam mudar o foco do discurso para o campo ético, mas isso já é outra história.

Agora, com isso não quero defender que essa atitude das empresas contratantes esteja correta. Nesse ponto concordo com a "denúncia" contida no texto. Deve haver um basta na exploração. Fazer um profissional trabalhar, criar uma expectativa e, ao fim, dar um "muito obrigado, mas seu projeto não foi aceito"... Inconcebível!

A esta altura, estava pensando... Talvez não seja de todo errado esse discurso da ética. Só que eu não "apontaria o dedo" para as empresas que contratam. Precisam os profissionais da área insurgirem-se e acabarem com essa "farra" do trabalho não remunerado. É a oportunidade dos profissionais, em nome da ética, dizerem um NÃO à exploração.

A concorrência é imanente ao sistema; já a falta de pagamento por um serviço prestado, mesmo que seja um projeto...

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